sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Trapaças

O céu estava claro, em um límpido e belo azul. Dante cortava as nuvens com enorme velocidade enquanto voava em Kitar, seu sombrio dragão de ossos.
Resolveu descer entre as árvores para matar a sede quando avistou um lago cristalino ao redor de um enorme carvalho. Mesmo em uma floresta que nunca havia visitado antes, não temia seus perigos ao lado de Kitar.
Sem nem observar a floresta que o rodeava foi direto ao lago, beber. Ouviu um cântico desafinado vindo por trás e ao virar-se assustou-se com diversas cabeças penduradas no carvalho, porém ainda estavam vivas e entoavam canções estúpidas.
- Não é um mago, mas tem um dragão, o viking imbecil vai ficar feliz! - Entoou a cabeça de um velho de barba longa e grisalha.
- Espero que seja gentil, não precisamos de mais uma cabeça mal humorada! - Respondeu em dueto a cabeça de um jovem de cabelos encaracolados.
Surgiu ao fundo uma outra voz, esta não cantarolava.                   
- Nem depois de morrer esses magos calam a boca! O que é dessa vez?
Apareceu entre as árvores um homem jovem e musculoso, com cabelos e barba compridos da "cor de barata", como ele mesmo dizia. Vestia roupas de pelo e um elmo com chifres, carregando nas mãos uma longa lança, que mais parecia um machado, chamado "lanchadão".
- Ai, meus deuses! Chegou o bruto, mata logo sem muito sangue! Quer conselho? Quer nos libertar? - Dizia uma das cabeças, assustada e inquieta.
- Fica quieto mago estúpido! Assim não consigo pensar! - Gritou o viking.
O bárbaro olhou Dante dos pés à cabeça, examinou suas armas, suas vestes e finalmente seu dragão.
- Esse panaca não é mago! Não me serve nem a cabeça! Mas eu gostei do dragão. Legal... Pode ir embora, vou ficar com ele.
- O que? Não pode sair furtando meus bens! - Gritou Dante assustado com a ousadia.
- Meu senhor, o termo "bárbaro" significa alguma coisa para você? Pois é! Significa que eu posso fazer o que bem entender! - Zombou o viking.
- Era só o que me faltava! - Dante revirou os olhos - Kitar solta logo uma baforada nesse...
- Nem adianta que minhas cabeças bloquearam o fogo do dragão - Dante foi interrompido pelo viking.
- Não somos suas cabeças, seu animal! - Gritaram as cabeças penduradas.
- São sim, cabeças estúpidas! Agora calem a boca! - Irritou-se.
Dante tentou aproveitar a situação desengonçada para pular em Kitar e fugir até sua casa, mas o bárbaro era muito ágil e deu-lhe um soco no peito no momento em que ele pulou. Dante desabou no chão e ficou gemendo de dor. O viking se abaixou e lhe dirigiu a palavra:
- Desgraçado! Não vai fugir não! Mas vejo que gosta muito do dragão, poderei ser flexível no nosso acordo.
- Acordo? E eu lá tenho escolha? - Murmurou Dante.
- Seguinte, ou me dá o dragão ou me leva até um mago longe daqui, pois os daqui já matei todos! - Riu o viking com a mão na barriga.
- Eu te levo! Eu te levo! - Choramingou Dante.
Ambos montaram no dragão de ossos e voaram rumo à floresta gelada. Dante os guiavam por horas, fazendo breves intervalos para comer algumas frutas ou beber nos lagos.
Chegaram até a gruta da qual Dante morava e deixaram Kitar por lá, o resto do caminho seria mais adequado ir andando. Subiram ao norte extremo da floresta até que Dante apontou uma escondida cabana entre as folhas.
- Que Erin me perdoe, é a única maga que conheço. Creio que ela saberá se defender - Sussurrou Dante para si mesmo.
- Magos covardes! Lutam à distância e ainda vivem escondidos! - Riu bem alto - Fique aí até eu matar o mago, não vá embora até eu ter minha cabeça.
O robusto homem prendeu a lança nas costas e desembainhou uma espada ao observar o baixo teto da cabana. Avançou em seguida, derrubando a bela porta de madeira, fazendo um grande barulho. Um grito feminino e surpreso surgiu vindo do cômodo ao lado. Empolgado e enfurecido, o homem correu até alcançar o local de onde tinha vindo o grito. A maga se levantava da banheira e enfeitiçava suas túnicas para que rapidamente a cobrisse. Ainda antes que pudesse se vestir o bárbaro ficou imóvel e observou seu corpo nu, repleto de marcas e desenhos nos braços, descendo até sua virilha. Mesmo não tendo conhecimentos sobre magia, ele sabia que aquilo eram marcas de uma maldição da qual poucos carregavam desde seu nascimento, seu efeito agia sobre sua mente, como se ao longo dos anos sua alegria fosse sugada pelas marcas até se parecer um zumbi, uma vida sem valor algum. Mesmo assim a cabeça da maga ainda lhe era valiosa.
Avançou determinado, pois algo lhe dizia que aquela feiticeira lhe guardava muito conhecimento.
- Uma mulher! Vai ser a primeira cabeça feminina em meu carvalho. Não deve fazer diferença, magos são todos covardes, todos atacando de longe! - Gritou o homem.
- Covardes? Estudar anos um mero feitiço é covardia? Mas se deseja um combate corpo-a-corpo lhe darei um! Irá fracassar do mesmo modo! - Gritou Erin em resposta.
- Não seja tola, maga! Vai lutar com um cajado de madeira? - Zombou ele.
Erin esticou as mãos e as juntou depois, conjurando uma poderosa espada flamejante, mas ainda era muito fraca comparada ao bárbaro. Retirou um frasco de seu saco aveludado e o tomou, ganhando grande força. Finalmente fez com que uma fumaça envolvesse ambos, os levando para fora da casa.
Dante continuou lá, tremendo no canto. Seus olhos estavam arregalados, torcendo por Erin em segredo.
O viking correu em direção à maga lhe dilacerando um golpe por cima, foi bloqueado pela espada de Erin que o chutou em seguida para longe. Ele cambaleou sem cair e rapidamente avançou mais uma vez, travando o início de uma árdua batalha.
- Dante, traidor! Como pôde trazê-lo em minha floresta para me matar? - Erin gritava a Dante sem desconcentrar-se da batalha - Irá ao inferno junto com ele!
- Foi por Kitar! Sabia que venceria a batalha! - Gritou Dante em resposta.
O tilintar das espadas não tinha fim, já estavam a bastante tempo lutando. Tantos golpes dados e desviados, tantas revira-voltas, tanto tempo perdido. Ambos já ofegavam, mas ninguém ousava desistir.
Já basta! - Gritou Erin enraivecida.
Erin esticou uma das mãos tão rápido que somente ela pôde ver. Uma enorme rajada de vento foi lançada de seus dedos jogando a espada do bárbaro para longe. No momento em que ele foi desarmado ela o derrubou e,sobre seu pescoço, deixou a espada.
- Trapaceira! Maldita raça a sua! - Gritou o viking enraivecido.
- Trapaceira? Em momento algum me distanciei para lutar, era fácil me impedir de lançar tal feitiço! - Erin sorriu sarcasticamente - É um bom guerreiro, pouparei sua vida, mas se o avistar novamente em minhas terras não terei piedade.
- Tem razão. Usou seus poderes com sabedoria e honra, sem covardia alguma diferente de todos aqueles que matei - Dizia o bárbaro calmamente - Seria grato se me aconselhasse quando eu precisar, ficaria honrado em ter sua amizade. Não a trairei, dou-lhe minha palavra.
- Está certo então. Uma coisa que jamais poderei fazer é desconfiar da promessa de um viking, ainda mais depois do que descobriu sobre mim neste dia - Disse Erin cabisbaixa - Mas agora parta, preciso descansar.
- Como assim? Tanta raiva acabou em amizade? Não compreendo! - Falou Dante confuso.
- Cala a boca, trouxão! Já vi que traiu a moça, ela era sua amiga e ainda assim me trouxe a ela. Peça desculpas ou levo é a sua cabeça! - Falava o bárbaro enquanto pegava Dante pela nuca e jogava de joelhos perante Erin.
- Desculpa! Desculpa, Erin! Não me matem, por favor! - Choramingava Dante.
Erin gargalhou e levantou Dante, o empurrando para ir embora.
- Então Erin é seu nome? Me chamo Turmíon - Disse o bárbaro.
- Certo. Agora deixe-me ir.
Erin reverenciou Turmíon e sumiu cabana adentro.
Antes que Dante descansasse em sua casa teve de levar Turmíon até o carvalho em seu dragão, pois queria manter sua cabeça onde estava.
O bárbaro desceu do dragão no mesmo lugar que havia saído, logo as diversas cabeças decepadas começaram suas canções desafinadas.
- Nenhum dragão, nenhuma cabeça! É sinal de liberdade! O homem do dragão de ossos nos salvou! Viva!

- Não! Calem a boca! - Disse Turmíon antes que sumisse entre as árvores.
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